Nuvens Passageiras
Alguns versos escritos por Marcelo Firmino
Dia de Confusão
A confusão por vezes rouba a mente,
Afana de pronto a imaginação,
Nuvem de gafanhotos esporádica,
Vejo nela meu algoz,
E não adianta suplicar para que ela seja menor.
Hoje é dia de confusão,
Teus pensamentos atordoados,
Tua vida quase perde o rumo da estrada,
Ave de rapina bela e malfazeja,
A espreita, só a te observar.
Cuidado ao viver, cuidado ao pensar,
Ela está na sua imaginação,
Cuidado ao atravessar o rio de preces,
Cuidado com aquilo que rasteja.
Quase não penso e é noite dentro de mim,
Vejo a sabedoria da coruja invejada pela serpente,
Ouço meu coração bater devagar num ato de torpor,
Calmo e sereno, esperto e afaz,
Não permite intrusos nos domínios,
E minha ferrovia tem seguros os seus dormentes.
Amanhã é dia novo, hoje não há solstício,
Note a água corrente,
Leva minha alma para um lugar seguro,
E seguro permanece meu espírito e o que ele faz.
Ainda não estás seguro, talvez amanhã,
Não se engane, não se perca no rio corrido,
Hoje é dia de confusão, note a mente a dar loucos espasmos,
Eu te digo que fiques, se afeiçoe a nuvem passante,
Segure-se no tronco de minhas árvores, mas não plantes minhas sementes,
A terra é fértil, mas hoje não é dia de plantar.
A luz dos meus cabelos te iluminam,
Mas tua energia te atordoa,
Sobrecarrega tua alma, perturbação,
Os sinais estão a ser descobertos,
Hoje é dia de descanso, o dia da preguiça,
As roseiras negam as rosas,
As abelhas negam o mel a derramar,
Eu nego a força do meu amor corrente,
A tonteira me desfalece nas tuas ferrovias,
Venha me salvar, pois hoje não é dia de sair.
Veja o pavão entristecido,
Veja a coruja a se confundir,
A serpente procria num único ato sexual eficaz,
Hoje é dia de preces, mas amanhã é dia de lutar.
Guerra SantaAgora estou entrincheirado, luto contra moinhos de vento,
Boçais criações humanas, ultrajam meu brio,
O dia escurece ao ver o quanto tenho ímpeto,
Já não vale mais nada vencer sem batalha,
O abuso é eternamente executado,
Eu vivo a lutar contra a minha lúdica imaginação,
Sofro com a dor dos meus ossos num dia frio,
Talvez os guerreiros sejam imaginários,
As rosas mortas testemunham o último intento,
As crianças me julgam num tribunal sem júri,
Agora estou condenado pela minha artilharia falha.
E já não adianta mais protelar sem planos,
Não faz táticas belicistas uma alma sagrada,
Se tudo tivesse preço, por-me-ia a venda,
Eu, alma incompreendida num mundo racional,
Estou perdido e preso na tua emboscada,
Infeliz hora de tréguas, triste momento para batalhas,
Numa guerra sem fim, que talvez se arraste por anos,
É injusto que eu fique sempre na tua mira, in loco,
Neste deserto escuro executo rezas pagãs e a posteriori,
Faz tempo que a paz me observa lá de cima e vê meus atos.
Ria-se numa quente tarde daquele que perde sem lutar,
Lamente-se por não haver causas reais de nossa desavença,
Reze pelo derrotado por psicoses infantis,
Ajude o ferido da frente do plantel do meu exército,
Veja o quanto sou bom no que não importa,
Eu, alma pueril, tenho discernimento,
Luto sem esperanças,
No meu arco puído e obsoleto resta uma flexa,
Do meu arsenal rico eu tenho apenas uma lança,
A você, minha algoz insensível, desejo sorte,
Mas principalmente, que aquele puro de coração vença.
Egoísta Eu já quis tão pouco.
Já fui tão ambicioso.
Tão egoísta...
Que de ego não havia nada mais.
Era apenas eu, nada mais...
Mas eu me bastava.
Pelo egoísmo te conheci,
e meu egoísmo resgatei,
como um anjo vingador que não vinga nada mais,
pois está cansado de ser tão mau.
Mal chego e já perco a auréola de credencial,
ardendo em tanto fogo,
Em meio às sombras e o vazio.
Rindo para ti, acariciando teu rosto,
nas trevas e nada mais.
Sete horas faltam para aurora,
terei uma noite vazia
nas trevas egoístas.
Escuridão egocêntrica que me tem como confidente.
Papel tolo interpreto,
eu o altivo de outrora,
hoje psicanalista da noite.
Ela me diz que a lua não mais a quer,
e que ela por isso me fará arder,
apenas isso e nada mais...
Ela diz-me coisas com um ar debochado,
como se eu mesmo não soubesse quem sou.
E penso: que seria de mim sem ela?
Por ela me tornaria vampiro!
Viveria com meu ego inflado.
em meio às trevas congestionantes,
numa densa névoa eu estaria a sorver vida alheia,
como egoísta que seria,
eu me bastaria,
eu faria minhas próprias trevas,
nem a noite eu convidaria.
Estaria fadado a viver no gelo do limbo...
Mas meus pés coçam,
e não posso sair.
Pois me usurparam de meu próprio ego,
e não sei mais que sou.
Vivo há noites embriagado nas vielas escuras,
nas gélidas trevas de um país nórdico,
a morder a mim mesmo.
Fui privado das sombras.
Fui proibido de me olhar no espelho.
E minha alma já não me reflete.
E não há mais nada.
Queira vir comigo, fada errante!
Se és de mentira,
ordeno que sejas meu placebo,
e nada mais,
Pois estou com medo de mim.
Não quero ver meu rosto usurpando o teu
E hoje ardendo no limbo pueril,
alvejo tua sombra em meio às trevas,
Vivo enojado com gosto amaríssimo na boca,
pois hoje eu não me reconheço mais.
Sorvendo-te até o pó,
talvez não mais serei tão egoísta.
Magia do Dias
Nesses dias estranhos, tenho visto conflitos,
O amor sempre tenta se auto-afirmar,
Mas não tem bases onde se apoiar,
Eu o vi ali, entre pedaços, vigor abalado,
Mas não me interessa tão nobre sentimento,
Estou a exercer livre arbítrio,
Após oito forças tudo se aquieta sob a luz solar.
Calor letárgico de outrora, frio voraz agora,
Não mais me importa o melhor dos sentimentos,
Vejo a terra, onde tudo é refeito,
Mergulho nesse mar de sentidos,
E não mais me sinto impuro ao te observar,
Pois se tu és nobre na essência da síntese,
A terra está pobre e carente de tais nutrientes,
E logo será prevista uma inundação em nosso lar.
O galho desta arvore nutre sua rosa,
Esta veia leva teus nutrientes até o coração,
Na terra nutrida nasce nossa casa,
E logo virei a teu nobre lar,
Podemos até nós permitir observar a luz crescente,
No meu saber cíclico não filtro sentidos sobejos,
Eu te vejo respirar, mas que nunca.
A correr na aurora, a crescer, a amar.
Respiras rápido, eu não mais,
Perdemos tanto em nos impor fatos pobres,
Quase a fruta se perdeu, a rosa viva na escuridão,
Quando poderei sentir teu ar dentro de mim,
Nutre os galhos de meu ser e brota vida eterna,
Quem poderá negar nossa união?
Eu nos vejo amarrados e presos,
Sem fé no que antes era, crentes no que será,
Jornada eterna e cíclica, me leve sempre em sua magia.
Circo dos Horrores Não mais te vejo no cerro, tampouco no baixio,
Subimos tão alto nesta imensa colina, havia tanta confiança,
mas agora, começas a sentir câimbras de medo;
E quando sentes o vapor entorpecente do mormaço quase desistes;
Amigos são para essas coisas, mas quem é você?
Ouço vozes que me falam baixinho: vai, vai e venças;
Sinto uma brisa fresca e lindas lembranças;
Seria tão estranho caso não viesses;
A velha porta entreaberta a ranger no silêncio,
tu me esperando bela, leda e arriada no chão;
Eu a correr na planície da aurora,
no sol da meia-noite.
Estou aqui no mesmo baixio que te conheci,
rememorando noites baquianas, gemidos à lua.
Tolamente desejando as estrelas,
Mas a culpa é só tua!
Deste-me Vênus!
Tão perfeita de graça que os ignorantes a deturparam,
canibais de mente suja, arrancaram dela os braços.
Eu te abracei, mas não houve retorno;
O coração bateu venialmente rumo à morte;
Afrodite tenta seus apartes, Cupido a suprime habilmente,
Bela batalha na cerração,
Bestialmente por mim analisada.
Alvas peles sob a lua,
Peles nuas a correr de arrepio,
Dando lugar ao vermelho espirrado pelo golpe,
E um sarcástico anjo sorri para mim; maldito carrasco!
Diz-me oh coisa santa, devo louvar as estrelas, ou devo amar a bela lua?
Dou-te sete dias para resposta, estarei aqui,
Onde tu sempre habitarás, nos pentáculos,
Nos sedutores tentáculos da bela filosofia.
Santo feitiço de amor e ódio!
Ainda hoje sou confiante, tanto sou que às vezes vitórias me assustam,
e da tristeza e mediocridade não mais vejo o rastro.
Criatura angelical me diz que o amor não se foi,
Pois há anos corro em torno de ciprestes tristes,
Mato as esperanças num crime sem dolo,
Vivo a enxergar além do precipício,
Vejo claramente o que há além das constelações,
Meu ódio crava suas unhas imundas em meus pés!
Meu doce amor, tão docemente me puxa pelas orelhas!
E você, criatura angelical, parece estar numa bela tarde no circo,
E eu maldosamente ao ver este circo dos horrores, lanço fogo a princípio,
Mas logo vejo, e orelhas ardendo em chamas, deste circo eu sou o astro.
SolManhã letárgica e cômoda,
sol menino, morno e belo,
hoje tenho esperanças ao acordar,
hoje ao ver o raio de sol, saberei quem somos nós,
permita-me sentir feliz, permita-me amar,
pois o meio do caminho se configura e terei medo,
mas com teu sorriso leva toda graça para Vós.
Eu, criança, brincava pelos seus campos de flores,
eu senti o aroma de tuas rosas, mas fugi antes do sol ir-se,
ele quem apagou a luz, eu que temi o caminhar,
pois não via mais a luz amarela nem o girassol,
eu cresci e o sol de mim se escondeu, venha...
eu brinquei com os sentimentos do sol,
tolos não vêem o sol menino, tampouco amam no jardim.
Fui abençoado três vezes durante minha vida,
o horizonte permaneceu inexorável, mas não pude vê-lo,
o sol mudou a todos, mas eles não tiveram real ímpeto,
deixe-me correr feito criança neste jardim, deixe-me caminhar,
pois de meu caminho eu sou autor do enredo,
a tola criança é a autora de todas persongens, ela é a algoz,
em seus olhos se descortinam todas as cores e odores.
És a potência sobre os fracos que caem diante de mim,
caminho soberano e meu estado de espírito é alterado,
o fogo arde e as chamas são vistas na vizinhança,
odeiam-me por eu ser feliz, pois tenho-te ao levantar,
meu sangue corre impetuoso e vejo a direção da luz,
já amam a mim, pois tenho o sorriso nos lábios, um sorriso supremo,
toda criança é inocente quando o sol é menino,
todo homem é senhor do destino quando o sol o guia no caminho.
Tenha bons sonhosÀs vezes sinto o aroma da noite,
Às vezes a noite me toma,
Sinto-me uma rosa polinizada,
Sou aquele que canta a aurora,
Eu te vejo acordar todos os dias,
E as rosas sempre te iluminam.
Casa limpa e roupa lavada,
Alma pura e amor recíproco,
Vida que seque e eu tenho você,
Você me beija e me cura,
Sou novo homem e canto como rouxinol,
As estradas me levam a você,
Você segue sua ida a um encontro marcado,
Olhe a hora, não vá se atrasar.
A rosa do oriente espera o sol,
Eu te espero já no crepúsculo,
O caminho é irregular e reverbera meu grito ao pôr do sol,
Nada de chorar se perdermos o caminho ainda na madrugada,
Temos a alma pura e somos crianças travessas,
Trabalharei de dia e à noite, para você casar.
Você é pura e leve, mas teu coração não cabe nos seios,
Olha só aquele tesouro, acabou tua procura,
Alma minha sempre perdida, agora tem o que sempre pediu,
Não minta para o sol nem fique insegura,
Amanhã ela te beija de novo, criança travessa,
Sempre pediu ao pai o que nunca veio,
Agora vives saudável com overdose de tanto amar.
E ela vem, véu e grinalda, paz, pureza e colosso,
Sábia verdade que nos guia, ensina-nos a mentir,
Pois amamos e meu sentimento e invejado,
Não sei dizer que não te amo e o luar sempre me faz minúsculo,
Criança feliz a correr, não fiques descalça e não fiques avessa,
Não vê que tanto amo aquela que nunca me machuca?
Ela sempre me beija depois do luar,
E as rosas sempre vêm me acordar,
Todos sempre me observam indo na estrada sem volta,
Atrás sempre daquela luz que sempre me cura,
Ela afaga meu coração e me faz sempre pensar,
Meu raciocínio a criou e nem a morte livrará este vão devaneio.
Segredo PsicografadoEscolha seu lado,
O céu do crepúsculo está avermelhado,
Nuvens espalhadas e meu coração alado,
Não seja bobo nem seja boçal,
Prepotência e covardia muito atrapalham,
E seu beijo deixou meus lábios dormentes.
Imagina aquelas estrelas lá longe,
Elas nos observam de camarote,
Sonhar com os pés no chão não vale,
Hoje é preciso voar, pois se meus pés estão entre correntes,
Meu coração voa alto e feliz,
Mas você tem medo e chora, débil criança.
Mas meu existir às vezes muito me cansa,
Tão tolo e audaz, tão belo e horrendo, terminado,
O céu avermelhado em fim é enegrecido,
Minha esperança é estupefata, vejo o esforço inútil,
Eu canto na multidão de espíritos alados,
Que bom que meus pés correm alegres, enviesados.
Sua boca é doce e a noite é bela,
Eu não sinto meu corpo, minhas pernas, nada,
Na multidão de rostos malditos eu sou bento,
Na orquestra eu sou maestro de mim,
Mesmo até que eu fique calado,
Meu clamor ensurdece teus ouvidos, desespero.
Mente sã, corpo são, alma santa,
Vida curta e amor perdido, apenas as estrelas vêem,
Amigas e amantes, me dão gozo numa bela noite sagrada,
Eu não sou tão bobo e vocês me conhecem por inteiro, sabedoria,
Vida longa e crianças aladas, nada além de tua mente,
Eu te vejo refletida num copo d’água.
Poema pagãoCaminhar entre as rosas é fácil,
Correr atrás de você como criança desvairada também,
Você é a única criatura do mundo que ri dos meus disparates,
E por isso tenho certeza que você é realmente táctil.
Há corrente ação em nosso jardim,
Objetos estranhos a nós, não são mal recebidos,
Evitamos sempre o conflito que sangra,
A jornada é longa, parece sem fim,
Hoje eu relembro o quanto posso te dar,
Pois você sempre faz que me sinta hábil.
O tempo passa rápido e me despreza,
Cronus desvairado, era dos disparates,
Tudo acontece e nada mais é sonho,
Eu lembro que te vi sem esperanças,
Hoje as tem, pois começas a andar depressa,
Olha pro lado, estou a te querer bem,
Olhe pra trás, estou a te guardar.
O aroma nos invade nessa manhã,
A esperança por si refaz-se,
Sua mão é quente quando a ternura transborda,
Nada mais é impossível e o destino é um fio de lã,
Seu olhar brilha e reflete a alma,
Quero-te nesta terra fresca a entranhares sementes,
Brota tua força pela eternidade com pressa e com calma.
Sabe que é observada enquanto raios de sol lhe ofuscam o rosto,
Mostra tua alegria, tu e todos que te querem,
Nada mais importa àquele que reverbera felicidade,
Esse campo de terra fértil e fresca nos envolve antes do orvalho da manhã,
Sente o solo em seu pulsar, alegria do sol,
À noite; a lua – linda – nos transbordará de amor para um dia diferente.
GuiaEu lembro da boca,
tinha vida naquele destino,
como que um imã,
mas é bobagem ter sonhos plebeus,
hoje eu sou o único homem da Terra,
hoje eu não amo ninguém e minha espécie está em extinção.
Eu não sou rei das terras baixas,
tampouco sou escravo de vãos devaneios,
não me dá na veneta aquilo que pra todos é desatino,
eu sou criado da fonte do desejos e afanador de suas moedas,
não me importa meus instintos selvagens nesta sociedade puritana, inquisição.
A luz que me ilumina já a muitos iluminou,
o solo que eu piso já foi por vezes desbastado,
eu sou criança neste mundo adulto,
eu procurei a esperança, mas ela não veio,
pois o amor foi lento em seus passos e o lobo o usurpou,
declaro aberta a era dos novos sentimentos!
Não se irritem contra mim, vãos e retrógrados sentimentos,
que é amor sem esperança? Não sejam patéticos..., utopia,
nomes novos são bem-vindos, qual nome devo dar aos novos?
Eu sinto calor no peito e vontade de sorrir... que isso? Qual nome?
Sinto-me leve e onipotente ao teu lado, pois sim, qual nome dos doces devaneios?
Não ria de mim, pois sou criança e não vi o amor...
eu maltrato o ar que eu respiro, eu mato os pássaros de minha liberdade,
eu vôo por muitos metros, mas caio por causa do peso de minha consciência,
eu saio às noites a tua procura e nunca acho o teu vulto,
sinto-me absolutamente livre na tua prisão,
sou cativo de meus devaneios, pois meus sentimentos são inomináveis.
Mas a boca vermelha me conta seus sonhos,
nesta noite triste ela me alegra a existência,
seu gosto doce, ácido, cítrico, libérrimo,
nessa profanação de almas irmãs, alimento sentimentos ocultos,
não me digam que meus sentimentos são bestas e sem nome,
pois logo a luz vira noite e a tua boca será meu guia lá nas terras da imaginação.
Eva e EuEva ri de mim e me vê como a encarnação perfeita de Adão,
Homem fraco pelo amor e besta de paixão,
Eu fiz e farei tudo que for necessário,
Eu andei pelos espinhentos descampados,
Minha mente agreste tornou-se vívida,
Meu modo de viver é feliz e eu sou tolo,
Seu perfume é o mais belo feitiço,
Eva me tem nas mãos e eu sou apenas a encarnação de Adão.
Eva sente que pode me amar também,
Eu já não sou tão boçal e agressivo,
Pois sua boca beija minha nuca e meu pescoço,
Minha mão envolve sua cintura e seu calor aquece meu frio sertão,
A bela dona determinada tem força nas palavras e ímpeto ao mover-se,
Ela corre rápido pelos meus acidentes geográficos,
Ontem a vi acariciando as cicatrizes do meu coração,
Beijou minha alma e ocupou seu lugar em meu regaço.
Eva é tudo que tenho em minha vida tosca e miserável,
Não adianta mais pensar em aprender, viver ou trabalhar,
Eva ocupou minhas terras como um povo andarilho faminto,
Fez solo arenoso tornar-se densa mata fértil de boas lembranças,
Meus erros são cada vez mais esquecidos em sua doutrinada sabedoria,
O meu sol luta pra que Eva não lhe roube o coração,
Pois meu amor fará Eva ganhar asas e voar até o infinito de minha alma enamorada.
Amanhã ela me acordará as seis e o sol estará sitiado em sua boca,
Seus seios nutrirão os frutos de nosso amor eterno,
Seus quadris serão morada das sementes de minha fértil imaginação,
Meus melhores desejos voarão nas belas e brilhantes íris de Eva,
Dormindo em meu regaço, os cabelos de Eva serão acariciados eternamente,
Os filhos de nossa secreta paixão serão os únicos habitantes do meu mundo imaginário,
Eva será minha mulher, minha mãe e minha amiga, pois colherá o bom trigo semeado,
O pão da vida provirá do amor eterno entre um homem e uma mulher…
A languidez de Lourdes
A languidez de Lourdes por vezes nos acompanha,
Finca posto e sitia nossas vidas,
Suas risadas reverberam nos ouvidos dos inocentes,
E inocência é o que Lourdes procura,
Pensa-se até que Lourdes é a Deusa da Justiça,
Outros acham injusta tal alcunha.
Eu sinto um frio na barriga ao deparar-me com Lourdes,
Seus cabelos trançados e seu braço potente,
Mas de sua boca sai brisa leve e mágica,
Por vezes acho que sou o médico e ela é a cura,
Mas de certo que sensações tolas não são bem vistas.
Lourdes ama esconder-se nas brumas de minh’alma,
Como uma Dona Legítima, desbasta seu sítio,
Minha mente é terreno de Deuses antigos criados por ela,
A grama e os arbustos e tudo exala a seiva de Lourdes,
E minha Senhora domina a imaginação, e a mim sobra quinhão algum,
Restos de vidas sobrepostas pelas cores de ações imprevistas.
Mas doces dores de gente amarga tendem em nos enfrentar,
E eu já temo pelos meus amigos, pois Lourdes é poder,
Quando eu me jogo do abismo, ela é quem me segura,
Diga-me como poderei viver sem tua vida?
E seu abraço quebra-me os ossos e só restam as seqüelas.
No horizonte de nuvens passageiras persistentes,
Corremos pelos descampados de ninguém,
Ela agarra-me a mão e meu peito débil parece sucumbir,
Tu dás a mim o que mais tem, nisso não há erro nem façanha!
Minha Senhora, o erro é desejar-te a alma e suas cãs arcaicas,
A chuva replanta minha juventude, enquanto que em ti fertiliza a astúcia.